Hoje pela manhã, enquanto preparava refeições, minha filha me apresentou um vídeo onde músicos de orquestra clássica, tocavam na rua, frevos maravilhosos, atraindo felizes curiosos. Pessoas de várias idades dançavam, ao seu jeito, ali mesmo, fazendo seu baile. Jovens artistas tocando nas ruas…

Acompanho há algum tempo, um fotógrafo admirável chamado Bruno Itan, da comunidade do Alemão, no Rio de Janeiro. Mesmo naquele cenário tão marcado por dor, miséria, violência, enxergo a beleza no seu olhar fotográfico. Pessoas nas janelas, meninos brincando, laje e pipas, campo de futebol, sol se pondo, ruelas e lavadeiras, e casinhas de tábuas, e mais crianças brincando…

O que Itan nos oferece é o coração pulsante do lugar. Só o artista, com sensibilidade, pode enxergar. Vinícius é um rapaz magro, alto, de longos cabelos claros, que perambula pelas ruas da cidade “oferecendo” seus cordéis. Estende seus livretos a quem passa. Poucos são os que param para ouvi-lo. Com seu sorriso tímido, sua delicadeza incomum, continua seu caminhar… Um dia desses conversamos sobre literatura, poesia, cordéis. Em muitos momentos me emocionei. Vinícius, esse artista andarilho, sem editora ou livraria, desconhecido e forasteiro, vive por aí, querendo apenas vender as suas palavras.

Seu Campelo é um vendedor de amendoim. Um amendoim diferente. Um amendoim chamado “ Como é Bom”. Seu Campelo, um homem de seus mais de 70 anos, negro, carrega sua lata com amendoins pelas ruas do lugar. Puxador de conversa, assim como eu, que “vivo” de histórias, diz que é sambista ( vejam que coincidência ). Diz que foi compositor da Império Serrano, União da Ilha do Governador… Conheceu Didi e tantos outros.

Concorreu e ganhou até. Peço que cantarole um samba seu. Mas que depressa ele o faz. Uma voz linda e ainda tão afinada me surpreende. Olho para aquele homem ali, humilde, vendendo amendoins, e penso em Cartola, guardando carros no Centro do Rio. Penso em Clementina cantando em botecos da Glória para ganhar uns trocados.

Penso em todo artista perdido por aí. Peço seu contato e ele me diz que seu telefone está carimbado no papel do amendoim. Deixo-o seguir, mesmo não querendo, mas prometendo um novo encontro para breve. Sai cantarolando baixinho um samba para mim. Chego para trabalhar apressada. Vejo um homem sentado numa das mesas, folheando algo que me parecia álbuns de fotos. Pergunto quem é. Me respondem que é professor e que aguarda uma outra pessoa. Depois de algum tempo, vejo que continua ali, quieto, na dele. Meus olhos encontram uma pintura conhecida. Reconheço o Largo de São Benedito, a igreja e uma roda de jongo…

Me aproximo. Me desculpo.Me apresento. Elogio o que vejo. Pergunto de quem é aquela pintura. Ele responde que é dele. Sento-me ao seu lado e começo uma viagem por Cabo Frio do séc. XVII. Cada imagem, um tempo, uma história, um fato. Imagens pintadas com tintas e especiarias, todas feitas pelas mãos daquele professor de História da Rede Pública Municipal. Quilombos, o Forte, a Igreja Matriz, o Convento, os escravos…

Seu talento é admirável. Assim como sua humildade. Expresso, imediatamente, o desejo de fazermos uma exposição. Ele vibra. Sonha com isso. Pergunto sobre custos. Ele responde: “ Nenhum.” Penso em quantas pessoas estão prontas a se darem por outros valores. Acabo de terminar um livro interessante que trata sobre a “ética do cuidado”. E deste assunto tão essencial nos dias de hoje – ética e cuidado- transporto meu pensamento para a Cultura do Cuidado. Para lidarmos com o outro precisamos estar muito mais conectados. Observar, sentir, ouvir, respeitar.

A Cultura do Cuidado deve ser abrangente, livre, independente, indiscriminada. Oferecer ouvidos e olhos atentos é um dever nestes tempos de tanto descuido. A arte é valiosa por proporcionar prazer às pessoas que a apreciam. Além, claro, de conhecimento. A relevância da expressão artística incentivada pelo cuidado. Uma menina que cantava no metrô do Rio, quase desapercebida, tímida e insegura, recebia de $0,50 centavos a $40,00 reais por um dia de trabalho nos vagões lotados.

Apesar de algumas caras amarradas, rejeições, ela seguiu em frente. Diz que a música é a sua arte. A mãe e a namorada a ajudaram. O projeto AfroReagae também. A menina de periferia, tímida, negra, homossexual e talentosa foi parar na TV. Mas a Cultura do Cuidado reconhece, mesmo longe da grande mídia, o valor da arte oferecida. A Cultura do Cuidado nos serve beleza, talento e atitude. Nos acorda para um mundo melhor. Nos eleva e torna a convivência mais possível. Ela nos despe de preconceito e nos prepara a alma para uma entrega sem distinção.

A Cultura do Cuidado quer apenas que voltemos a SENTIR.

 

 

 

 

Texto: Luciana Branco
Foto: Bruno Itan