Logo cedo, ela sai, despertada pelo sol. Gosta de ser a primeira, no encontro com a rua vazia. Sai assim, de sandálias, óculos escuros e saia. Ela é daquelas que sorri enquanto caminha. Observa cada detalhe; enxerga tudo o que vê. Na cidade grande é preciso ter mais sentido, senão as coisas se perdem invisíveis. E a vida é muito valiosa para passar desapercebida…

Outro dia, voltando para casa, a moça é surpreendida pelo comentário do “homem-morador-de-rua”. Já o havia notado em outras voltas por ali. Refastelado na calçada, cercado por sacolas plásticas, vestindo bermuda, sorriso de poucos dentes e bondade iluminando o olhar. ” Sou seu fã! diz assim, sem mais. Ela que adora gente, estacou à sua frente tentando entender o que disse. “Como assim é meu fã?”  pensou admirada. Como que adivinhando o seu não entender, adiantou-se falando: ” Você é uma atriz e tanto! Adoro seu trabalho!!” E agora? Como destroçar a fantasia de alguém já tão sem sonhos? Como dizer: ” Não. Você está enganado! Não sou atriz.”  O que lhe veio, foi soltar um sorriso agradecido e seguir em frente, entendendo quase nada.

Existem dias que nascem brotando gente que jamais imaginávamos saber. Agora, na vida dela, aquela pessoa existe. O homem sentado à calçada, maltrapilho, maltratado,  tinha  face. Assim nascem os encontros. Assim nascem as histórias das vidas que se entrelaçam, de repente, num dia qualquer, por aí…  Quem sabe ele não será alguém de quem se orgulhará?

Surpreendendo-a, de novo, avisa que é poeta. E poetas e ruas combinam tanto! E poetas são “marginais”, estranhos mal entendidos, incompreendidos e solitários, tal qual moradores de rua.  Estas pessoas, tem portas abertas para a vida. Se expõem, se mostram, mas ninguém os enxerga, até, claro, que nos confunda com uma “atriz”; ou que do nada nos declame uma poesia. Na rua, todos com a mesma cara, a mesma cor, a mesma impressão digital e histórias para ninguém ouvir. São desimportantes até que nos toque de alguma forma.

O chocolate, foi presente dele. Talvez tenha ganho de um passante; talvez tenha juntado moedas para comprá-lo… Vai saber! O fato é que, desprendido da necessidade, deu à ela um doce presente inesperado. Ela só tinha que receber. Este era o único gesto de gratidão: receber. Na rua, a moça e o poeta vivem sua primeira Páscoa “juntos”. Num doar vindo de onde não se espera; e de um receber constrangedor, mas cheio de ternura.

Agora não são mais estranhos. A moça e o poeta. Eles se enxergam, se veem, se reconhecem, mesmo diante a linha tênue que os separa. Ela continua acordando cedo suas manhãs, caminhando suas saias coloridas pelos dias ensolarados da cidade; ele, “escondido” dentro do homem que existe, morador da calçada, atrás de sacolas e trapos, vai vivendo pelas ruas de uma cidade sem “sol”.

E se não é poesia – a moça, o poeta e a rua – o que seria?

 

 

Texto: Luciana Branco
Foto: Reprodução Internet