Amplexus, abraço em sua origem latim. Aproximação, colar o coração um no outro; afogar-se no amasso; sentir o calor um doutro; de dois tornar-se um; entrelaçar-se; perder-se nos braços; dar e receber…

Não se descreve um abraço. Sente-se um abraço. Imprescindível sensação de conforto, plenitude e amor ao próximo. O abraço é o laço mais profundo entre pessoas que não cabem em si. Não precisa amar, apenas vontade de reconhecer. O abraço é o gozo do encontro quando não se precisa de palavras. É a força atômica numa explosão etéreo da alma com outra alma. É o tomar nos braços de proteção e zelo; da comunhão e separação.

O abraço também se solta na despedida, mas não sai do corpo de quem abraçou e foi abraçado. O abraço é remédio reconfortante na hora do medo; é a energia liberada para a decisão; a brasa para o fogo que quer arder; o afago que precisa para acalmar… O abraço é presente precioso gratuito, que desperdiçamos na nossa eterna falta de tempo em não poder parar. O abraço precisa minutos. Demorado e longo é melhor. E se com pontas de dedos, acompanham suave massagem nas costas, aí é delírio! Mas os breves também valem. Assim praticamos para os grandes abraços

Ontem, num evento, onde centenas de pessoas cantavam e dançavam numa felicidade compreendida pela música e ambiente, ouvi de amiga que “aquele era o evento do abraço”. Extasiada me dizia o quanto havia abraçado pessoas pelo lugar.  Já longe dela, pensei que sim, havia uma energia diferente, também abracei e me senti abraçada durante todo o tempo. “Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força jamais o resgata”. Estaria Drummond falando do abraço? O abraço é o amor que damos sem saber.

Pois bem, depois de ontem, graças a minha amiga, resolvi abraçar o mundo. Abraçar amigos, inimigos, conhecidos, desconhecidos. Querem um abraço? Vem!!! Vou dar-te o meu inteirinho! Cheio, gostoso, cheiroso, reconfortante.

Não estranhe se, de repente, numa rua qualquer, alguém te agarrar em um laço, serei eu, no meu abraço. Que se dane regras!! Se não me abraçar de volta, ainda assim vai valer à pena! Estarei dando, mais que recebendo. Ontem, depois de cada abraço, me senti mais forte e corajosa. Fui derretida por dentro. Amada por dentro. Cuidada. O abraço é o cuidado com o outro;  o abrir-se para uma viagem intensamente breve. Quero comigo, agora mais do que nunca, pessoas que sabem do que estou falando.

Hoje cedo, chegando em casa, vi dois adolescentes remexendo lixo. A menina bonita, de covinhas no rosto, como minha filha, chamava Ester. O carrinho que empurrava, debaixo de sol quente, em horário que deveria estar na escola, tinha  versos escritos: ”  Se Deus é por nós, quem será contra nós? Ninguém.” Quem será Ester? E Moisés, seu primo que a acompanhava como um anjo de bicicleta? A única coisa que pensei foi que estavam ali, naquele momento, para que pudéssemos nos abraçar. Um abraço triplo, engraçado, de estranheza por parte deles, mas de muita felicidade por mim. Talvez pensassem que fosse doida. E quem sabe não seja?! A louca por abraços!!!! Vi-os afastarem-se ainda rindo da situação inédita. Entrei feliz.

O abraço é casa aconchegante para qualquer tempo. Tem cheiro de mãe, avô, amor… É de graça e sem contra indicação. Não tem idade, validade… Tem gosto de paz.

Se posso pedir algo, que seja esse aperto especial, fraterno e suave, abraçado assim, peito esquerdo no outro peito esquerdo, em silêncio e vagaroso, no infinito bater do coração. Tun, Tun, Tun, Tun, Tun,Tun,Tun,Tun…

 

 

Texto: Luciana Branco
Foto: Reprodução Internet