Ela acordou os meninos, antes das seis. Tinham muito caminho pela frente. Todos os dias eram dias longos e cansativos. “Lavem a boca e limpem bem as remelas!” Ordenava a mulher corajosa, aos seus filhos sonolentos. ” Não quero que passem vergonha por desleixo!” Enquanto passava a água fervente no coador com a borra de pó de anteontem, falava alto para não esquecer, que a vida não era fácil. Falava alto, propositalmente. Ela já sabia, os meninos não.

Na pequena mesa de madeira, com dois bancos, a mãe ficava de pé, enquanto servia o café com duas bolachas. Uma para cada. ” Comam devagar. Assim se engana a fome.” Os meninos miúdos de olhos arregalados obedeciam. As mordidas eram pequenas e bem mastigadas. Não havia fartura nas manhãs daquele barraco. Nem em palavras havia fartura. Se fosse para se queixar, melhor nem falar.

Sandálias de dedo, shorts surrados e camisa de uma escola pública. Este era o uniforme que os fazia ser iguais aos outros tantos meninos. Nas mãos, sacolas plásticas com poucos cadernos. Na boca, a palavra, “bênção”, antes de saírem. Ela não era boa de carinho e afagos. Fora criada assim, seca. Mas avisava-os dos perigos, todos os dias, nas manhãs antes de saírem: ” Somos pretos e pobres. Pra nós tudo é muito pior.” Os meninos, tão meninos, não entendiam bem o que a mãe queria dizer com, ” é bem pior”, mas seguiam atentos aos avisos.

Na ruela do morro, onde fica o barraco, pessoas passam apressadas para seus serviços, num vai e vem de formigas. Ela não deixa a porta, até que  seus meninos sumam na curva; eles não fazem a curva, sem por os olhos na mãe. Os olhares se cruzam por segundos, como se, todos os dias, se despedissem sem saber.

Soldados fardados e armados “invadiram” o morro com a desculpa de proteger. Todos eram suspeitos. Soldados armados apontavam suas certezas para a cara dos pretos do lugar. Todos eram culpados. A vida ficou muito pior depois disso. Portas eram arrombadas, famílias eram expostas e crianças perderam a liberdade de brincar. Não havia mais lugar seguro. A bala comia. Ela tinha medo.

Um dia a dor dobrou a curva. A mesma curva dos olhares trocados nas manhãs. Fora obrigada a sair de casa para identificar os corpos baleados. Um farrapo cobria as crianças ensanguentadas, deixando os pés de moleque à vista. Uma dor cortou-lhe os pulsos em hemorragia interna. O coração parara de bater. Boca seca e pernas trêmulas. Seus olhos enxergaram, na mão de um deles, a sacola com cadernos da escola. Em volta, pessoas choravam e gritavam e pediam justiça. Ela não tinha forças para, nem isso. Seca, como sempre fora, saiu andando a esmo, pelas ruelas do morro, esbarrando-se com pessoas sobressaltadas, assustadas, abaladas. Subiu no mais alto ponto do morro. Olhou lá embaixo, a cidade começando a iluminar-se. Pensou no que os fazia tão diferentes… Pensou que talvez achassem que por aqui, não sentiam dor. Ela não via mais sentido em voltar para casa. Jogou-se no precipício. Voou para um lugar onde não tivesse mais despedidas depois da curva.

 

 

 

 

Texto: Luciana Branco
Foto: Reprodução Internet