O Menino de Varjota, um homem do Sertão, acostumado com a lavoura e a vida dura, percebeu que seu filho não queria a mesma vida. “Ele gostava é de estudar.”  Na pequena cidade do Sertão, no Ceará, o pai saía cedo e poupava o filho, que debruçado sobre os livros, lia, lia, lia… Não entendia bem, mas se era seu desejo, deixava quieto.

Na pequena cidade de um Sertão rodeado de pobreza e possibilidades limitadas, o menino crescia junto com seu sonho de sair dali. Conhecimento era o que perseguia. Desde cedo, no encontro com as letras, descobriu que podia ser mais. Sair de sua cidadezinha; voltar para sua cidadezinha; mostrar-se para o mundo; mostra-la para o mundo. Nenhuma barragem inundaria seu desejo.

Varjota renasceria como ele. Do nada seriam visitados por olhos que não se viu, incrédulos pelo que acontecia. A educação do menino sertanejo, salvara-lhe de seguir anônimo; salvara sua cidadezinha pequenina de passar inundada apenas pelas águas que a devastaram anos atrás. O pai que o entendeu; as escolas por que passou; e a vontade que o impulsionou seguir em frente.

Ontem paramos para nos emocionar com a história de um menino do Sertão que, “incredulamente”, é premiado com um JABUTI. Maior Prêmio da Literatura Brasileira. Sua poesia: “Vomitada, guardada dentro de mim. Só me senti bem quando botei o livro pra fora. Ele estava dentro de mim.” Fez com que nós, estranhamente, sentisse que já o conhecíamos de algum lugar. Talvez de algum lugar dentro de nós…

O menino Mailson Furtado, hoje com 27 anos, mostrou seu livro de poesia para várias grandes editoras, que se negaram editar. As pequenas, que se interessaram, não ofereciam ao autor, nenhuma contrapartida pela obra. Assim, fez como aos outros livros seus, uma produção independente. Escrito a mão; desenhado por ele; revisado e editado. Sorte a nossa que não desistiu

Num país tão grande, que se preocupa tão pouco com a educação, deveria toma-lo como exemplo. As portas não foram abertas para esse garoto; ele as arrombou com sua coragem e determinação. Lembro de uma história sobre uma menina de rua que lia livros escondida numa livraria. Sentava-se no chão, livro aberto nas mãos, com a permissão da proprietária, desde que não “atrapalhasse” o negócio. Até que um dia foi notada por uma escritora, cliente da loja, que curiosa, procurou saber o que ela fazia sempre naquele cantinho, espremida, agarrada ao livro.

A menina espantada disse que não estava fazendo nada de errado. Que adorava ler. Que apenas ficava ali, lendo até quando desse. Não tinha dinheiro para comprar e não gostava de ficar na rua pedindo esmolas. A escritora comprou-lhe o primeiro livro. E depois outro, e mais outro, e mais outro.

A menina não podia levar para “casa”. Não tinha casa. Deixava-os guardados ali na loja. Segundo soube, ela hoje trabalha na livraria, é a melhor de todas as vendedoras, porque conhece bem autores e obras, e cursa a Faculdade de Letras depois do expediente. Ah! Sua melhor amiga, a escritora que a encontrou tentando salvar-se entre os livros em dias de pouca esperança. Livros salvam vidas. Livros nos livram de muito mal.

Livros são portas para uma liberdade transformadora. Livros deveriam estar nas mãos de todos os meninos deste país. Obrigada, Mailson, por não ter desistido!

 

 

Texto: Luciana Branco
Foto: Reprodução Internet