Mais Um Dia Logo cedo, Aurora estende a roupa no varal. Os lençóis alvos dançam levados pelo vento. Passa o café, arruma a mesa, varre a casa, que ainda, adormecida, pensa que não amanheceu. Liga a mangueira, rega seu jardim, suas plantas e ervas. Espalha mãos e mãos de canjiquinhas para as rolinhas, que ansiosas esperam… Liga o rádio, procura uma estação que lhe ofereça música, ao invés de notícias. Tira o frango do congelador, deposita numa grande vasilha plástica, dentro da pia. Abre as janelas, e por alguns segundos, “viaja” para outro lugar. ” Quero falar de uma coisa, adivinha onde ela anda, deve estar dentro do peito, ou caminha pelo ar, pode estar aqui do lado, bem mais perto que pensamos…” Milton Nascimento acorda a casa. De repente, o marido, espreguiçando-se, abraça-lhe pelas costas, dando-lhe “bom dia”.

Ela gosta daquele homem. Gosta de quando acorda ao seu lado; gosta da maneira como vivem, lado a lado; gosta até de suas rugas profundas ” Não me esperou, meu bem? Sabe como gosto de fazer as manhãs com você?” O sorriso dela, seu assunto. Café servido, os dois assim, sentados de frente para a janela que, aberta, oferece um infinito de beleza lá fora. As mãos se tocam, enquanto beliscam a broa de milho, o pão integral, os ovos mexidos… Mesmo depois de tantos anos, aquele homem a fazia arrepiar, somente com um suave toque de dedos.

Ele tira a mesa, lava a louça, corta o frango e o tempera com alho, sal, pimenta e alfavaca. Ela colhe margaridas brancas. Ele a observa pela janela e a ama de longe. A jarra de vidro transparente recebe as flores que passam a enfeitar a mesa da sala. ” Vamos, meu bem? Aqui já está pronto.” Os dois saem, de mãos dadas, para o passeio matinal. Dom os segue. Dom é o vira-lata, cego de um olho, adotado por eles.

Passeiam juntos todos os dias pelo mesmo caminho. Aurora gosta de jogar gravetos para que Dom corra, pegue e os entregue de volta. Pelo caminho, apenas o som dos passos na terra seca, os latidos de alegria e os suspiros do homem amado. Reparam que as árvores que plantaram há tantos anos estão cada vez mais crescidas. Cada uma tem um nome de neto. É uma maneira de tê-los por perto. O almoço é servido na varanda. Aurora pede que ele abra um vinho.

Os dois brindam mais um dia juntos e saboreiam a galinhada preparada pelas mãos do homem da casa. O café, a cadeira de balanço e o cochilo. Dom aproveita a preguiça de seus “pais” para abocanhar os ossinhos deixados nos pratos. Uma nuvem pesada anuncia a chuvarada.

Aurora e o marido correm para recolher as roupas do varal. Eles riem com a correria e pressa desastrosa. ” Corre, meu amor! A chuva vai cair!!” Disparam com os braços cheios de roupas, em direção a lavanderia. Aurora chega na frente e despeja a roupa dentro das bacias. O céu desaba em água. Ele não chega… Ela se volta para fora e vê seu marido caído. Corre ao seu encontro. ” O que faz aí, amor? Vamos logo?!” Ele sorri, com os braços estendidos para ela; ele sorri, deitado sobre os lençóis alvos, agora molhados; ele sorri e sussurra ” Eu te amo”.

Aurora passeia com Dom pelo caminho de sempre. Ele brinca buscando os gravetos. Recebe afagos quando os devolve, e gosta. Nas mãos, uma linda muda de Pau Ferro. Árvore preferida de seu marido. Procura um lugar para plantar. Observada por Dom, Aurora enterra a raiz com cuidado. Com as mãos, mexe na terra, cobre o buraco e rega. Num silêncio de oração, se entrega. Ele está ali, agora. Sempre estará. Aurora levanta-se, esfrega no jeans, as mãos sujas de terra e chora. Cai num pranto como o temporal daquele dia. Dom percebe que sua dona não quer brincar. Entende sua tristeza e a segue, quieto, solidário de volta para casa.

 

 

 

 

Texto: Luciana Branco
Foto: Reprodução Internet