Ela deixou as malas na porta, prontas para partirem. Nada mais lhe cabia ali. O amor, de tão pouco, saiu pela janela, num suicídio previsto. Até que o elevador chegasse, uma última olhadela. Não para confirmar o que sabia, mas para guardar imagem do que nunca mais retornaria. Nenhum bilhete.

Nenhum telefonema. Nenhuma explicação. As inúmeras tentativas de diálogo haviam se esvaziado neste fim abrupto. Afinal, decidira deixar a casa logo cedo, quando acordou.

Aproveitando a ausência ao lado da cama e os silêncios que diziam tudo. A separação é de uma dor esquisita. Sabemos do desamor e, ainda assim, tentamos amar. Na portaria, as chaves. Não lhe pertenciam mais. Agora era seguir sozinha outros caminhos. Malas no carro. Carro sem destino. Ela gosta de dirigir ouvindo música. Gosta de olhar pessoas atravessando as faixas de pedestres.

Gosta de imaginar o que fazem da vida. Talvez, quase todas, doídas por dentro, precisando arrumar malas e sair sem destino. De um lado mar azul, e seus brancos das ondas quebrando na areia; do outro, prédios cinzas e sem graça. Talvez sejam essas, as escolhas do amor: cinza concreto ou azuis movimentados.

Diante o mar, uma imensidão de pensamentos. Quer banhar-se. Abre uma das malas e veste seu maiô, ali mesmo, dentro do carro, espremida no pouco espaço, rindo por dentro. Caminha seca até o mergulho profundo no mar salgado.

Sempre ouviu, por aí, que o mar cura. Não que estivesse doente. Talvez a alma… Jogada na areia, olhos fechados, vibra com o som das ondas no seu vai e vem. Parecem fazer amor. Há muito tempo não tinha um tempo tão seu. E gosta. A liberdade de existir para si, somente para si, lhe faz bem. A maré começa a subir. Sente a água tocar seus pés. A vida é como o mar. Feita de marés. Baixas, altas…

Retorna ao seu carro. Liga para a melhor amiga. Pede guarita por uns dias, até pensar no que fazer. Mesmo salgada, veste a roupa. Sente fome. Liga o carro e segue a procura de algum restaurante. No banco do carona, o celular vibra. Na tela, um nome conhecido. Deixa que toque muitas vezes, até que, num impulso, para o carro, e atira o aparelho numa lixeira. Não bastava mudar o número. Era preciso apagar todas as lembranças contidas ali. Fotos de quando eram felizes; fotos de quando fingiam ser. Sente mais fome. E sede também. Para num lugar bem perto da praia. Vazio de gente.

Gosta do cheiro da comida. Um senhor simpático lhe oferece o cardápio variado de frutos do mar. O gosto hoje inteiro era do mar. Enquanto espera seu pedido, o homem lhe serve uma cerveja gelada. O gole desce saboroso pela garganta ressecada de palavras. O amargo da bebida lhe cai bem. Depois de tudo, agradecimento. Ainda sofrendo, estava viva.

A liberdade de agora lhe impulsionava para a sobrevivência, porque era preciso. Aquele simpático homem, sorrindo para ela, numa cortesia além do cardápio, dizia, sem pronunciar nada, coisas que lhe faziam bem. Saiu, deixando gorjeta e aperto de mão. Talvez, uma forma de gratidão.

Partiu assim, lavada e enxugada para sua mais nova vida, seguindo conselho do poeta: “O que a vida quer da gente é coragem.”

 

 

Texto: Luciana Branco
Foto: Reprodução Internet