Temos chorado tanto. Sentido tanta angústia. Ficado mais isolados da alegria. Temos feito pouco bordado nas roupas; pintado menos telas; desenhado pouquíssimos papéis…

Temos ligado menos para o outro; visitado amigos, cada vez mais raro; escrito cartas ou emails… Temos sorrido menos; tomado menos sorvete; picolé, até lambuzar-nos… Temos estado estranhos com o outro; estranhos conosco, dentro e fora.

Temos feito menos caridade; emprestado menos os ouvidos; estendido tão pouco as mãos. Temos feito mais caras feias; discordado mais que acordado; vendo sem sentir. Temos respirado errado; cobrado demais; aceitado de menos.

Temos explodido dinamites; soltado fogos; estourado barragens. Temos estado acima da lei; fora da lei; dentro das próprias leis. Temos passado por cima da história; das pessoas dessa história; da vida dessas pessoas e suas histórias. Temos punido, ainda mais, quem menos tem; temos feito pouca justiça.

Temos feito escolhas erradas; caminhos errados; companhias erradas. Temos lido pouco o que interessa. Visto pouco o que interessa. Sabido pouco o que interessa. Temos esquecido a cidadania em alguma gaveta do armário. Temos desaprendido a forma de viver em comunhão.

Temos agido mal, sem desculpar-nos; temos perdido direitos sem reagirmos. Temos esquecido lições de delicadeza; perdido tempo com o que não tem valor. Temos sofrido com a falta de afeto; com o excesso de raiva e a escassez de amor.

Temos perdido gente por ignorância; e ganhado um punhado de “seguidores” por vaidade. Temos deixado de ser gente, para não sermos bichos, porque bichos se defendem. Temos trancado as portas, janelas, subido os vidros dos carros…

Temos blindado nossa vida e atirado na vida do outro. Temos sentido mais medo do que devíamos e, com isso, temos ficado reféns da violência que nos cerca. Temos sentido tão de perto a violência que nos cerca e pouco a violência que cerca os que nos violentam. Temos repartido pouco; repartido nada.

Temos aceitado a desigualdade social; a saúde terminal e a justiça condenada. Temos feito pouco para mudar tudo isso… Quase nada.

 

 

Texto: Luciana Branco
Foto: Reprodução Internet