Ele fez samba pra ela. Samba bonito, sincopado, falando de amor. Ele é poeta, músico, compositor. Fez canção para homenagear a mais linda das mulatas… Aquela por quem tinha afeição. Ele não é homem de dar em cima de mulher. Não da forma vulgar que se vê por aí. Galanteios só através dos versos; “cantá-las” pela poesia e a música escorrida de seu violão. Ele sabia que não teria chance, já que: baixo, preto e manco por sequela de acidente, ainda criança, não seria o tipo de ninguém.  Membro da Ala de Compositores de sua Escola do coração, era muito requisitado.

Todos queriam sua parceria por conta de infinita inspiração. Suas músicas silenciavam as quadras e bares por onde passava, pela sede de se querer ouvir tão bom som. Entranhava, fazia bem, inundava à todos de delicioso prazer. Muitos estranhavam tanta inspiração já que ele, solitário e sem boniteza, não tinha lá uma vida das mais felizes. “Coisa de Deus”, dizia aos amigos que brincavam com o seu dom. Sentado na frente de sua casa, num bar, na quadra, no terreiro, na feira… Se vinha-lhe  inspiração, corria logo a arrumar pedaço de papel qualquer, caneta para anotar , antes que “fugisse” para longe as ideias que lhe chegavam. Era assim, sem hora e sem lugar. Muitas vezes, em meio a conversa e cerveja, do nada emudecia, deitava olhos sobre coisa alguma e ficava ali, impávido, como a espera de uma entidade. Mais do que depressa, conhecendo o jeito dele, amigos corriam na providência dos apetrechos para anotação já que, de uma só leva, libertava a música.

Depois disso era briga feia para conquistar a parceria. ” Eu faço a letra!” ” Eu faço a primeira parte!” Quase saiam aos tapas, ao que o homem balançava a cabeça como a dizer: “Que bobagem”. Ser seu parceiro era a glória! Todos sabiam disso, menos ele, que tudo achava exagero.  Mas voltando ao samba feito para sua musa Jurema – este o nome dela, precisou de parceria não. Saiu inteiro, da cabeça a ponta dos dedos, letra e melodia, nascido com a perfeição da grande inspiração. Tocava, tocava, tocava… Todos embebidos à seu redor a pedir mais. Aos poucos já sabiam acompanhá-lo. Num coro bonito e emocionado, exaltavam a mais nova obra de arte. ” Vai estourar!!” “Lindo!!” ” Maravilhosa melodia!!”  “Vai estourar! Deixa a Beth Carvalho ouvir?!” Ele absorto pela música que fazia, mal percebia os comentários dos amigos e admiradores. Para ele apenas importava o objeto enaltecido pela canção. Para ele, só ela…

Homem tímido, de quase não falar, transformava-se quando tocava seu violão. Ali sua guarda, sua casa, seu escudo protetor. Sabia que tocando era desejado, por mulheres e homens amadores de sua arte. Isso lhe fazia bem, o deixava feliz… Mas também tinham os alcoviteiros, invejosos, que adoravam uma conversa fiada: ” Wilson, meu caro, e aquela mulher vale esse samba lindo?!” ” Wilson, deixa de ser besta! Tira o nome dessa mulherzinha do seu samba! Ela não presta!” Ele fingia não ouvir as intrigas. Fingia não estar ali. Sabia que Jurema não lhe daria bola. Sabia que não teria chance diante aquele mulherão. Mas que importava?! Veio dela a inspiração. Do seu balançar de um lado a outro, mexendo as cadeiras como música de Caymmi. Vê-la atravessar a quadra nessa dança que só os seus olhos enxergavam, faziam-no Caymmi também. Para um, Rosa; para outro Jurema. “E as mulheres não foram feitas para fazermos, delas, canção?” pensava ele, enquanto sonhava.

Uma pequena multidão o rodeava no centro da quadra. Agora conversas frouxas e barulho de copos brindavam o momento. Quase noite quando alguém solta do nada: ” Jurema, vem ver o samba lindo que Wilson fez pra você!!!” Nesse instante toda a quadra silenciou. Apenas o barulho de seu salto, num toc toc ritmado.  Também, seu coração disparado podia ser ouvido pelo mais atento. Fizeram, sem saber uma batucada. O salto dela e o coração dele. Sentado, violão nas mãos, fingia dedilhar qualquer coisa para trazer calma. Sabia que estava à seu lado pelo perfume doce que o embriagava. Ela sentou-se e pousou seus olhos negros sobre ele: ” Fez samba pra mim, Wilson?” Assustou-se ao ouvir seu nome pronunciado por ela.  Todos em silêncio esperavam a resposta, que não vinha, pelo nó que apertava-lhe a garganta. Ela ali, tão perto, ao seu alcance… ” Posso ouvir, Wilson? Você toca pra mim?” Trêmulo, havia perdido notas e partituras; letra e melodia… Braço não sentia mais. A dormência tomou conta de todo o corpo. Achava que nunca na vida tocara violão. Um burburinho se fez. Ela levantou-se: ” O samba é meu?!” perguntou vaidosa para as pessoas em volta.” Nunca ninguém fez música pra mim. Toca Wilson?!” Não pode mais segurar aquele apelo delicioso. Seus dedos deslizaram pelas cordas do violão intimidado. A música foi invadindo o lugar, tomando à todos numa embriaguez avassaladora. Coração aos pulos e alma repleta de alegria, ouvia a pequena multidão cantando em coro o samba feito pra ela.  Passeou olhar enquanto tocava. Achou-a assim: livre. Dançando, cantando e sorrindo em sua direção como se o tivesse visto pela primeira vez.   Naquele momento, Wilson entregou-se inteiro ao samba feito de amor. À partir dali, nada mais importava. Não havia mais ninguém no salão. Só os dois… De manhã cedo, ele acordou com cheiro de flor e café na sua cama.

Texto: Luciana Branco
Foto: Reprodução Internet