Durante nossa “viagem” pela vida, existem momentos de reflexão sobre o verdadeiro sentido dessa nossa passagem por aqui. Poucos momentos, infelizmente… Distantes do que nos conecta com a espiritualidade e da essência de verdadeiros valores – ” A não indiferença é a essência do valer”, nos afastamos de nós e de todos os outros.

Nos sofás macios de nossas salas, assistimos diariamente, acontecimentos bárbaros, grotescos, desconcertantes, sobre interminável crueldade humana. Com o controle nas mãos, buscamos remotamente, notícias sobre desgraças alheias, tratadas de maneira sensacionalista e corriqueira, pela grande mídia deste país. Somos espectadores das barbáries. Degustadores da dor alheia. Cúmplices do silêncio que alimenta a impunidade.

Desaprendidos de viver em comunidade; anestesiados pela comodidade, mostramos nossa extrema falta de compromisso coletivo com comportamento brutalmente individualista. Quase irracional. Tudo torna-se natural, até a violência incontida. Indo num caminho sem volta onde, em breve, manchetes de jornais e noticiários anunciarão, entre uma propaganda e outra, que: ” Grande crise alimentar faz com que moradores de rua passem a matar e devorar seus companheiros, por fome ou motivo torpe qualquer”.

Embora pareça exagero, vejo uma nova Idade das Trevas, já que também, agora, assistimos “pessoas” incendiarem  índio; mendigos; prostitutas e travestis, alegando serem “justiceiros da sociedade”, assim como políticos. Criança espancada por “louco” em momento de surto. Filho morto por mãe que não “aceita” sua escolha sexual… São muitas as manchetes diárias falando de horror, enquanto aguardamos passivos a hora da novela.

O que nos diferencia dos animais irracionais, segundo Rubem Alves, “é o sentimento de solidariedade nascente do afeto que sentimos pelo outro, assim, brotando o desejo de ajudar”. Sensibilizar-se e, com isso, prestar socorro. O nó na garganta diante a emoção de uma cena, o aperto no peito que sangra por dentro nossa alma são sensações físicas advindas de sentimento inerente a todo ser humano. Só o homem é capaz de emocionar-se. Nenhum outro animal. Perdendo a emoção estamos, em definitivo, nos colocando muito abaixo de qualquer animal irracional, já que, ao contrário deles, pensamos.

“Na tela da Tv, no meio desse povo”, o sangue escorre pelas janelas das crianças arremessadas por “pais” insanos; pelo marido esquartejado que não queria pagar a pensão; pela mulher esfaqueada, diante dos filhos, que se recusava reatar casamento com medo da violência; pela criança que, apedrejada, sofre violência sem saber por quê; pelos bebês abandonados nas lixeiras das cidades como dejetos; pelos corruptos que tiram do povo remédio, comida, casa e dignidade pela sua ganância imensurável; pelas mãos da mãe que dispara no peito das filhas, as balas de uma sociedade cada vez mais selvagem.

Estamos perdidos… Todos perdidos. E o medo maior, diante tanta maldade e ignorância é saber o quanto estamos expostos aos inimigos comuns que viramos de nós mesmos, infiltrados nos lugares mais simples de nossas vidas, à espera de um louco ataque de fúria.

E não nos iludamos quando formos nós, as vítimas nas manchetes dos noticiários… Todos os outros serão apenas meros espectadores.

 

 

Texto: Luciana Branco
Foto: Reprodução Internet