A casa tem sua alma. Um pouco de tudo. Um pouco do mundo em cada lugar. Em tempos normais, pouco tempo para ficar. Viagens, congressos, palestras, supervisões, orientações, aulas, aulas, aulas… Afinal, não pode ser diferente quando se é um verdadeiro professor. Casa é lugar de sossego. E quem tem vida corrida, sabe o que significa.

Casa é lugar de paz. Na casa, o coração bate mais forte na cozinha. Ali se desliga de tudo. Se conecta com um universo de receitas, inventos, temperos. Brinda amizades, amores… Acerta, erra e tenta de novo. Como a vida.

A cozinha é um universo de saberes que nem ele entende. Sentir é verbo da cozinha. Isso ele sabe. Quantas não foram as vezes que, em momentos de deliciosa felicidade, dividiu conosco seus preparos de alquimia. Trocávamos, ainda que distantes, os sabores da sua festa, sempre regada com gosto e música. Cozinha é o coração da sua casa. A alma também.

E nestes tempos tão doloridos de distância que enfrentamos, cada qual, a sua maneira, não poderia nos fartar (ou faltar), com suas gostosas preparações. Receita nova. Agora sozinho. Quarentena. Distância. Vazio. Mas a cozinha a lhe preencher, de novo, todos os sentidos. Enquanto segue o passo a passo de seus instintos culinários, ele cantarola canções da cantora que mais o inspira. “Eu sou do jeito que sou e se quiser me mudar, vai se arrepender, pois foi assim que gostou…” Sua voz ecoa no pequeno cômodo de amor. Sal, pimenta, ovos, farinha, queijo… E cantarola ainda mais: “ Você me vira a cabeça, me tira do sério, destrói os planos que um dia eu fiz para mim…” A cozinha tem uma ótima acústica.

Ele gosta de cantar, enquanto cozinha. Forno quente esperando o tabuleiro. Ele dá o último toque. Toda comida é uma cerimônia de prazer. Enquanto limpa a pia e toda a “bagunça” provocada pelo preparo da nova receita, ele canta mais alto e forte: “ Sou doce, dengosa, polida, fiel como um cão, sou capaz de te dar minha vida…” O aroma começa a invadir o ambiente. Ele sente e sorri. Como gostaria de dividir todo aquele sentido, toda aquela aprendizagem gustativa com o mundo lá fora. E ele canta ainda assim: “Este amor me envenena, mas todo amor sempre vale a pena…” E como vale!!

Dança pelo espaço, como se estivesse acompanhado. O perfume, o cheiro… agora invade todo ambiente. Feliz, ele comemora com mais música: “Você vai embora, por aí a fora, distribuindo sonhos e carinhos que você me prometeu…” O alarme toca avisando que é hora de tirar do forno. Ele obedece. Sabe dos cuidados. O tempo na culinária é tudo. Absorve ainda mais os aromas vindos daquele prato. Sua boca fica cheia d’água, ao mesmo tempo em que seu coração amiúda, porque sabe que não terá com quem compartilhar aquela nova descoberta gastronômica.

Na janela, para esfriar, põe a iguaria. Agora é esperar. Lá fora, as luzes de uma cidade mais triste. Uma melancolia, de repente, o abraça, assim, sem pedir licença. Lembra-se da mãe, da irmã, dos melhores amigos. Lembra-se do amor, de todos os amores que, talvez também, estejam sozinhos. Um vinho. Duas taças. Um brinde ao que vivemos e a sorte de termos uma cozinha para encher de aromas e lembranças. Enquanto espera, ele canta: “Vai sentir falta de mim, vai sentir falta de mim, vai tentar se esconder, coração vai doer, sentir falta de mim… Vai sentir falta de mim, sentir falta de mim…”

E de repente, gritos e aplausos vindos dos prédios vizinhos. Ele não estava sozinho. Seus olhos não seguraram mais as lágrimas; nem seus lábios o sorriso. A felicidade espantou a melancolia, porque a beleza existia ali, com aquelas pessoas, tão distantes, mas perto. Sua música foi ouvida e fez muito bem. Assim como sua culinária faz. E naquela noite, de tantas pessoas sozinhas, ninguém provou da solidão.

Texto: Luciana Branco
Foto: Reprodução Internet