Conheço uma mulher chamada Lúcia. Lúcia mora numa comunidade do Rio de Janeiro. Trabalha como diarista, em 4 casas distintas. Lúcia sorri a toa. Mesmo com a iminência da chegada de um ciclone – anunciado aos quatro cantos pela mídia nacional- na Região Sudeste, onde Lúcia tem uma casinha, na comunidade do Morro do Roncador. Provavelmente, Lúcia não sabe o que significa a chegada de um ciclone na Região Sudeste. Penso também que, talvez desconheça que sua casa, no Morro do Roncador, fique na Região Sudeste. Lúcia varre a casa, de corredor comprido e, vez em quando, para,  para falar ao celular.

O sorriso não lhe sai da boca, mas seus olhos demonstram cansaço e uma certa inquietação. Gosto de conhecer gente. Saber suas histórias… Basta uma pergunta, sobre como chegou até aquela casa, para ouvir uma enxurrada de vida. Lúcia teve 4 casamentos; 4 filhos de cada homem. Só o filho mais novo, de 18 anos, mora com ela, e seu atual marido. Lúcia tem 4 filhos homens. Um dos filhos homens é gay. Me fala isso, esperando reprovação, o que claro, não acontece. O filho gay de Lúcia, mora com o pai, que não o aceita e o repele.

Ela diz que, este seu filho, é muito raivoso e difícil de lidar. Pergunto se é fácil lidar com a rejeição, ainda mais de um pai… Ela sorri e diz que, apesar disso, ele é um bom homem. O filho mais novo de Lúcia trabalha como rebatedor num clube de tênis. Ela se orgulha do filho e espera que vire um grande tenista. Lúcia gosta da cidade grande.

Gosta de seu trabalho como diarista. Gosta de morar na comunidade do Morro do Roncador, mas diz que seu marido quer voltar para o interior. Pergunto quem decide, nesse caso. Ela responde sorrindo: “Se ele quiser mesmo, tenho que ir, né?” Percebo que posso estar atrapalhando o trabalho de Lúcia. A casa é grande e ainda tem muito trabalho pela frente. Finjo me ocupar com uma ligação. Peço desculpas. Vejo que ainda está, em pé, recostada no parapeito do quarto, esperando para recomeçar. Me sinto culpada por romper aquela “sessão” de quase análise. Sorrio para ela e faço sinal de que vá. Ela entende logo e, sai. De onde estou, escuto os seus barulhos pela casa. Vez ou outra, sua voz ao telefone. Do outro lado da janela observo uma família de gatos amarelos. Uma família como outra qualquer.

Minhas horas naquela casa desconhecida me fizeram aproximar de Lúcia. Saíram todos e ficamos nós. Poderia ter ficado em silêncio. Ouvido música no fone de ouvido. Aberto um livro. Poderia ter me fechado no quarto, fingindo estar descansando de nada. Poderia ter ido até à praia, dar uma volta, mesmo no dia chuvoso nublado. Poderia ter sentado num bar, pedido uma cerveja. Poderia ter ido ver minha neta, que chegara de viagem…

Ah! Quanta opção interessante, para o tempo de espera, até que chegasse a hora de partir. Mas a minha mania de ouvir gente, conhecer pessoas, me fez ficar para ouvir as histórias da garota com o sorriso no rosto, que ama limpar casas. Não sei se para Lúcia tenha feito alguma diferença, aquelas horas naquela manhã. Para mim, fez toda!

Texto: Luciana Branco
Foto: Reprodução Internet